Onde vivem os monstros & ela
....................................................................................................................................................................................... . para Müller Barone
Ontem assisti com a família ao filme Onde vivem os monstros.
Foi bom que tinha visto antes uma crítica negativa sobre ele, então que minha expectativa era pequena.
Não cabe aqui contar o filme, mas a vontade é relacionar com a crônica Fale com ela, escrita pelo Barone e publicada na edição 382 do Palanque nesta sexta-feira de Carnaval.
Considerando que o filme tem indicação para público infantil, surpreende um pouco que os monstros sejam capazes de atitudes de raiva, ciúme, ingenuidade, arrependimento, perdão, amizade, família afetiva, solidão, tristeza. Não há soluções milagrosas, a mentira aparece e é naturalmente desmascarada, enfim, são monstros como a maioria de nós.
A grande questão é justamente ‘Onde vivem os monstros’. Numa ilha isolada. E, também, dentro de nós.
O protagonista do filme, seu fio condutor, é um menino vestido com roupa de coelho de pelúcia, às voltas com seu ser monstruoso... brincadeiras, mundo infantil, e... raiva, ciúme, etc etc... até então, acreditava que comportamento de ‘brincar’ de guerra era uma boa via para espantar sentimentos doloridos... Mas, é convivendo com os monstros da ilha que percebe ser esse um caminho infeliz... e decide voltar para casa, para sua família, para o abraço de sua mãe.
O filme se passa sem que haja uma conclusão, uma síntese expressa, oralizada por algum ser humano... E as crianças que assistirem ao filme, tirarão suas próprias conclusões... o que pode nos parecer um tanto inquietante...
Ao ler e sentir a crônica do Barone, em que com tanta propriedade ‘ela’ nos é apresentada com suas sutilezas, matizes e táticas, todos ganhamos. Sabedoria, pois é extremamente difícil ‘nomear’, verbalizar os meandros dessa lida, e acompanhar seu relato nos acrescenta acuidade, precisão, esperteza da boa. Isolados, distraídos, quantas vezes ‘ela’ pula sobre nós, sem que percebamos, e ali ficamos às voltas nos rodamoinhos...
Se ficarmos na ilha de nós mesmos, ‘ela’ pode chegar, de dentro pra fora, de fora pra dentro. Ao apresentá-la para nós, Barone nos ajuda, pois posso ver milhões de vezes em que ele é atencioso e delicado conosco, seus amigos, respondendo ao que nem falamos para ninguém, orquestrando tantas visões e emoções ricas, contraditórias e nos mostrando... E esse Palanque gira rápido, movimenta conscientes e inconscientes, lança faíscas de entendimento, gotas de compreensão que vão amadurecendo ao relento, orvalhando nossos ânimos, reanimando nossos objetivos.
Simples, persistente, pois em cada um de nós existe a centelha da vida, somos plantinhas a esticar o caule em busca da luz, da vida. Para sermos folhagem, viçosa; flor, de qualquer cor; sementes de evolução. Sim, temos missão, temos irmão, mão e coração. Rima que arrima, mãos, que se dão.
Clarice Villac
14.02.2010
http://www.palanquemarginal.com.br/
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