“Um resultado comum e natural do indevido respeito pela lei é que se pode ver
uma fila de soldados — coronel, capitão, cabo, soldados rasos, etc. — marchando
em direção à guerra em ordem admirável através de morros e vales,
contra as suas vontades, ah!, contra suas consciências e seu bom senso,
o que torna esta marcha bastante difícil, na verdade,
e produz uma palpitação no coração.”
- Henry David Thoreau, A Desobediência Civil.
Início do século XXI.
Se estão disponíveis, para parte da população planetária, qualidade de vida material confortável, vemos essa mesma parcela refém dessa situação.
Televisão panorâmica apenas na técnica, armadilha dissimulada a dissolver discernimentos.
O controle remoto da tv de cada dia institui a impaciência como disposição usual. Criancinhas entretidas com essa babá eletrônica crescem zapeando sua atenção em busca de efeitos especiais, sensações postiças altamente estimulantes, seduzidas criaturas consumistas.
A multiplicidade dos apelos superficiais demanda a todo instante respostas que se desagregam em impulsos desorientados, interpretados por essas criaturas modernas como necessidade imediata de experimentar os extremos das sensações, emoções, prazeres.
A sensibilidade se embota.A sensibilidade se embota.
Meu amigo vive há quinze anos nos EUA. Seu filho brasileiro, para quem ele conseguiu uma valorizada nacionalidade norte-americana, hoje está num boot camp em Oklahoma. A sensibilidade se embota.
Rapaz confuso, sem bases afetivas consistentes, não conseguia se desenvolver nos empregos, persistir em cursos profissionalizantes, aprofundar relacionamentos com namoradas.
Num espaço de dois anos, passou de admirador ardorosíssimo do Metallica — quando até participava de uma banda de heavy metal, tocando baixo — a mórmon praticante, e limpador de piscinas nas mansões de rica cidade na Califórnia.
Depois, conheceu pela internet uma jovem na Suécia e dali a cinco meses foi até lá para conhecê-la pessoalmente e ficar noivo. Comprou um anel de noivado antes de partir e foi passar o Natal com sua pretendida futura família. Mas “não rolou um clima” entre eles...
Voltou muito decepcionado e alistou-se na reserva do exército norte-americano. Foi chamado, está recebendo treinamento militar. Alega que se sente bem no exército.
O grande engano. O Tio Sam sabe “elevar a auto-estima” de sua massa de manobras. Nos cinemas os mitos bélicos a se enraizar nas consciências, nas notícias somente a exaltação da glória e soberania norte-americanas, a manipulação persistente é tão generalizada e arraigada que o rebanho segue feliz e cordato.
Assim esse jovem adulto de 23 anos agora se sente seguro, tem quem lhe diga o que fazer, tem um emprego, prestígio, “um lugar reservado na sociedade”.
Por enquanto. Se a Guerra no Iraque continuar, deverá seguir para lá em dois anos. Talvez pense que dois anos é muito tempo, que irá para cuidar das máquinas e veículos, que ficará bem longe da linha de fogo.
Talvez tenha em seu interior um repertório de cenas cinematográficas do tipo Charlie’s Angels, talvez tenha brincado com bonequinhos Rambo quando criança, talvez acredite que os norte-americanos são os mocinhos que lutam contra o terrorismo, e não se lembre da enorme importância que a indústria de armamentos representa para esse país tão ganancioso...
Com certeza não analisa a partir de outras perspectivas as informações que recebe, não busca conhecer os fatos sociais e suas interpretações nas outras partes do mundo, talvez nunca tenha lido um texto de antropologia ou sociologia...
Saberá o que é ao certo a Anistia Internacional ? Onde estão as pessoas que poderiam lhe apresentar estas ponderações ? Ninguém conseguiu desenvolver nele o gosto pela leitura, esse legado de humanismo ?
Será que nunca teve um cachorrinho como companheiro solidário, o que permitiria que conhecesse a lealdade, que se sentisse responsável pela vida de um ente querido, que valorizasse a afeição em estado puro...A sensibilidade se embota. Boot camp.
Até onde iremos ?
Clarice Villac
29/30.06.2005
criação da imagem 2: Vera Vilela
![]()