Eu me lembro muito bem *
Mécia Rodrigues
O sol de inverno passa pela rua como bandos de cães raivosos e alados, que destilam saliva e linóleo pelos dentes negros. O sol de inverno calcifica as primeiras sílabas que escoam pelos encanamentos subterrâneos e torna amarelas as páginas dos velhos livros de geografia de um colégio antigo, agora atormentado e abandonado entre ciprestes.
Ali naquela esquina, havia uma farmácia com um balcão redondo e dentro dele algumas coisas que inundavam a cabeça daquelas meninas que passavam por ela: perfume de orquídeas, bonecas japonesas, unhas tailandesas. E depois da farmácia, pulando duas casas, apenas duas, estava a sua. Por onde eu subia cinco degraus e fazia uma pequena curva à esquerda, atravessava a entrada e estava na sala, com mesinha de centro e centro de crochê. Nós íamos nadar naquela casa da rua Wanderlei, onde seus olhos azuis e suas covinhas iam atravessar a água quantas vezes fosse possível, e sua avó sempre nos recomendava que tivéssemos cuidado, que não fossemos para a parte funda, nem havia parte funda naquela piscina, nós só cometíamos a evitável imprudência de ficar apostando quanto tempo conseguiríamos ficar embaixo d’ água sem respirar. Os cabelos batendo nos ombros e um maiô rosa, rosa o meu, o seu era azul, e a respiração alterada pelo tempo que ficávamos submersas, os nossos corpos jogados na beira da piscina. Era verão, era dezembro. Minha mãe, você dizia, referindo-se à sua avó e sua avó, referindo-se a você, quando eu estava sozinha com ela, esperando você se arrumar, dizia: minha filha.
Uma vez ficamos presas no elevador do meu prédio, depois de batucar em todos os botões incessantemente e ninguém poderia ficar sabendo disso. Montamos um campo de vôlei, onde havia ainda uma espécie de bosque, onde fora o Asilo dos Alienados um dia, e dizíamos em casa que íamos à aula de violão. Acho que não sabíamos tocar nada, e que a indulgência do Universo nos protegeu e deixou que a transposição da infância para a adolescência se prolongasse ainda nesses momentos. Também dizíamos que íamos estudar matemática, quando na verdade nos esperava uma bicicleta roxa e a amizade do dono da mercearia que concordava em marcar refrigerantes na conta da minha mãe, anotando outra coisa, como café, por exemplo. Também tínhamos fotos de artistas de cinema coladas nos cadernos, meio escondidos, para que ninguém soubesse por quem batiam os sinos quando voltávamos para casa e parávamos no prédio da Itapicuru para conversar mais um pouco e exibir as fotos. Nesses dias, dizíamos em casa que tínhamos mais uma aula, o que nos dava mais uma hora à toa pela rua.
Você contemporizava as minhas brigas na sala de aula. Eu beijava os namorados no porão da sua casa. Você dizia que ia estudar Direito. Eu fazia capas de cadernos com fotos de paisagens do Japão recortadas de revistas. Você colocava uma travessa na cabeça, de manhã, para chegar penteada ao colégio, eu comia o recheio dos doces que encontrava na cozinha. Nós íamos à tarde, estudar inglês no Yázigi, e não fosse pela minha Pollyana, — você — teria deixado de lado muitas coisas. Descobrimos que podíamos jogar pingue-pongue na PUC, graças à sua alegria que acabou cooptando os marmanjos do centro acadêmico, e fazendo com que eles nos cedessem a mesa. Descobrimos uma nova marca de absorventes, e com ela a curiosidade enorme sobre o sexo, sobre coisas que ainda não sabíamos, mas que intuíamos.
No seu aniversário eu te dei uma blusa decotada e florida, no meu aniversário você me deu um disco de músicas italianas. Assistimos comédias açucaradas no cine Hawai e comemos milhares de doces na Delicatessen Fasano. Jogamos boliche e passamos um batom vermelho bem forte para ver como ficávamos.
Passávamos com medo pela casa mal-assombrada da rua Ministro de Godoy e infinitas vezes falávamos em entrar lá já que ela estava abandonada mesmo. Traçamos grandes planos para essa entrada que nunca deu certo, fosse pelo que fosse.
Você foi cantar em uma apresentação de final de ano da nossa turma. Eu, meio retraída, me contentei em tocar um instrumento de percussão, lá no fundo do palco.
Depois você entrou mesmo na faculdade da Direito e eu mudei do bairro.
Depois você continuou em mim, doce Pollyana, com o mesmo rosto e o mesmo sorriso da sua infância e adolescência. Depois você mudou de São Paulo e se perdeu de mim. Em parte. Porque ficou gravado em uma das minhas almas, a azul, o seu retrato: você era a menina mais bonita e popular do bairro.
Por isso quando passo pelas nossas casas, demolidas e pela farmácia, que deu lugar a alguma outra coisa, eu sei que estou passando por outro lugar, e passo indiferente à sua ausência. Na minha memória ainda é a mesma a nossa casa e colégio, a sua avó com sua blusa enfeitada de rendas e a janela da sua sala, com cortinas de tule. O colégio grande entre ciprestes possui as mesmas sílabas que bandos de cães raivosos teimam em destruir.
* Texto escrito pela Amiga Mécia Rodrigues, em junho/julho 2008, in memorian de Maria da Conceição Villac, minha irmã.
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