Elas estavam em algum lugar...

 


Elvira respirou naquele sábado à noite...
O pequeno Henrique já estava dormindo, a casa mais ou menos ajeitada, o trabalho com os livros estava planejado para o dia seguinte... sim, agora poderia descansar um pouco.
Na Tv Cultura, encontrou um filme, antigo, alemão, em branco e preto, desconhecia diretor e atores, mas algo lhe chamou a atenção...

Era a história de um casal circense.
Ele, um atirador de facas. Ela, sua assistente, quem ficava encostada na madeira que servia para receber as facas que contornavam seu corpo feminino.
Assim tinham passado muitos anos, estavam já os dois na meia-idade, e a mulher mancava de uma perna e um de seus olhos não mais enxergava, devido a facas que não haviam alcançado o alvo combinado. Mas, ela amava muito seu marido, e entendia que aqueles acidentes eram ossos do ofício, fazer o quê... e sempre o incentivava, apoiava, mimava, servia... O homem, que se achava perfeito, vivia a reclamar com ela, por tudo e por qualquer coisinha... Ela sorria, desculpava, atendia, compreendia...
Ultimamente andavam se desentendendo num ponto: ela insistia que ele visitasse um oculista, ele lhe garantia que estava ótimo, que não havia necessidade nenhuma de trocar seus óculos.
Então, uma tarde, foram ensaiar seu número, o circo estreava naquela noite numa nova e importante cidade.
Ele começou a atirar as facas, do mesmo modo que sempre fazia... Acabou seu treino, ordenou a ela que recolhesse as facas, e saiu para fazer alguma coisa que considerava importante, sem nem olhar para trás. Depois de umas duas horas, chamou por ela, precisava de seus trajes circenses em ordem para o espetáculo que começaria em breve.
Chamou, chamou, ela não respondia, não aparecia... Reclamando alto, começou a procurá-la, onde já se viu sumir daquele jeito... Voltando ao local do ensaio, encontrou-a caída no chão, tinha sido atingida por uma de suas facas, ele não havia percebido...
Ela disse: — Querido, falei para você procurar o oculista... — e morreu.
Ele saiu falando: — Mulheres... quando você mais precisa, elas falham... E agora, como vou me apresentar no espetáculo desta noite ?

Elvira estava surpresa com o filme. Primeiro pensou por que a Tv Cultura, sempre tão criteriosa com seu repertório, teria escolhido exibir esse filme tão estranho? O filme não era comédia, tinha um clima de vida comum, sem glamour, sem justiça, sem respeito, sem moral...
Em sua noite de sábado, Elvira estava de repente diante de uma possibilidade nova, em que nunca pensara: então, existem pessoas que são, se tornam completamente insensíveis com quem convivem proximamente...
Como se tivesse ganho um presente desapaixonadamente verdadeiro, Elvira percebeu que, em sua convivência anterior com o pai de seu filho, realmente havia mentiras, que ela não conseguia definir lucidamente quais seriam, mas que talvez estivessem também nela, ao querer desde sempre enxergar naquele homem não o que ele era, mas sim o que ela gostaria que ele fosse.

Clarice Villac
19/20.06.2004



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