As borboletas natalinas
Estava já animada a festa na véspera de Natal, parentes conversando, comendo, bebendo.
Perto da meia-noite, toca a campainha e chega o tio Cássio M’Boy, com um grande embrulho quadrado.
Camisa estampada com vermelho e azul, grandes hibiscos; cabelos e bigode brancos, colares e sorrisão em seu rosto franco.
Pintor primitivista, ‘caipira’ como gostava de dizer, trouxe seu presente para o irmão banqueiro: um grande quadro a óleo, retratando sua interpretação de como José, Maria e o Menino Jesus conseguiram escapar dos guardas de Herodes: uma grande revoada de borboletas multicoloridas formou uma parede que os encobriu, escondidos numa gruta, e os guardas passaram sem os ver.
Cássio tinha ali uma admiradora incondicionalmente encantada, sua sobrinha-neta, menina sonhadora e imaginativa, que sempre ficava junto com ele, se maravilhando com suas conversas, caretas e causos engraçados, completamente diferentes de tudo o que costumava ver.
Muitos e muitos anos depois, ela atinou com o verdadeiro sentido do presente de seu tio Cássio naquele Natal...
Precisamos nos transformar em seres multicoloridos, leves, delicados, deixar de rastejar na matéria... e assim preservar a dedicação de José e Maria, o amor que o Menino Jesus trouxe para germinar...
Borboletas esvoaçantes, a proteger os mais altos ideais humanos, a despistar a milícia equivocada, gananciosa, que busca obtusa o poder material...
Pessoas-borboletas, é preciso polinizar este século XXI...
Germinação, Natal, Renovação !
Feliz Natal a todos !
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Clarice Villac
dezembro 2005